Documentário “Oestemar” registra a vida de seis comunidades litorâneas do Ceará

Dirigido pelo cearense Felipe Camilo, o filme será pré-lançado na próxima quarta (18), no Cineteatro São Luiz. A produção aborda as lutas políticas e as práticas culturais de povos tradicionais do litoral oeste do Estado

[PUBLICADO ORIGINALMENTE PELO DIÁRIO DO NORDESTE]
A experiência de viver em um ambiente apressado, tecnológico e midiático, a exemplo do que se tornou a vida nas grandes cidades, pode dificultar o exercício da empatia diante de outras realidades. Nessa direção, a produção cultural tem, dentre outras possibilidades, a chance de encurtar distâncias e criar pontes entre o urbano e as comunidades tradicionais dos recantos do País. O documentário “Oestemar”, dirigido pelo cearense Felipe Camilo, do coletivo Trama de Olhares, envolve as lutas e o sentido da vida das pessoas que habitam seis comunidades litorâneas e tradicionais do Ceará. A produção captou entrevistas em Tatajuba, Caetanos de Cima, Assentamento Maceió, Flecheiras, e entre os povos indígenas Tremembés de Almofala e da Barra do Mundaú – todas no Litoral Oeste do Estado. Na próxima quarta (18), ocorre o pré-lançamento do documentário e encerramento do projeto “Mapadoc – Cartografias de Culturas Cearenses”, no Cineteatro São Luiz (Centro). Às 17h, haverá apresentação de uma roda de coco da comunidade de Caetanos de Cima e do torém dos índios Tremembés. Em seguida, às 19h, acontece a exibição do filme. A programação é gratuita. “A gente realizou pequenas residências nessas seis comunidades, e fazia lá oficinas, cineclubes. E ia gravando o documentário, a partir das escolhas feitas dos moradores envolvidos nas atividades”, recapitula Felipe.   oestemar1 Foto: Henrique Kardozo   O foco da produção audiovisual são as lutas das comunidades, além de suas rotinas de sustento com a pesca artesanal e a agricultura tradicional, refletidas nos depoimentos de figuras de agentes políticos e culturais locais. Mais de 60 pessoas foram entrevistadas e 12 foram incluídas na primeira edição do filme. Felipe sinaliza que, adiante, vai assistir ao material ao lado das pessoas registradas e ouvir sugestões de alterações para uma nova edição – antes do documentário passar pelo circuito de festivais de cinema. “A Teresa do Coco, por exemplo, é uma das poucas mulheres que é mestra do coco de roda. Ela reavivou (essa manifestação) lá em Caetanos de Cima. E faz parte do grupo feminino que luta pelo território da comunidade. A partir dessa atuação dupla, encontramos um bocado de gente assim (no filme)”, observa o diretor. Questões contra a especulação imobiliária, contra projetos de turismo em massa, sobre a implantação de usinas eólicas, aparecem nas falas dos entrevistados. Nesse miolo, as práticas culturais das comunidades dão, também, um tom lúdico à edição, por conta do apelo da literatura de cordel e das músicas indígenas, dentre outras artes.   Macrorregião De início, a produção do filme pretendia trabalhar por macrorregiões do Ceará. As grandes cidades dessas localidades, no entanto, mostraram uma dinâmica política diferente em relação aos povoados menos habitados.  
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Foto: Henrique Kardozo
“Muitas dessas comunidades têm a prática do turismo comunitário como uma maneira de manter a luta política delas, associada a uma fonte de renda que não gera danos ao território. Lugares como Jericoacoara já passam pelo processo do turismo massivo. Flecheiras mesmo é um exemplo de como as forças econômicas costumam abordar esses recantos do Litoral Oeste”, reflete o diretor Felipe Camilo.   Simplicidade O diretor enfatiza que, embora o documentário toque na ferida de questões complexas e de largo interesse econômico – como a da implantação de um megaresort na Barra do Mundaú, tudo é relatado de maneira simples. O registro audiovisual, reforça Felipe, não se preocupa em preencher os espaços com excesso de informação. “O filme nem utiliza imagem aérea, tudo é baseado na fala deles”, complementa.  
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Foto: Felipe Camilo
  O material em vídeo revela os “protagonistas” dessa história como exemplos de vitalidade. Ao anotar que as intervenções de grandes empresas nos territórios geram inúmeros conflitos, Felipe enaltece a resignação e a alegria desses povos tradicionais. “Os Tremembés da Barra do Mundaú contam a história de quando pessoas ligadas a um megaempreendimento tocaram fogo numa palhoça que eles tinham construído. E eles ficaram lá dançando o torém e depois reconstruíram tudo de novo”, conta.   Serviço Pré-lançamento do Doc “Oestemar” Nesta quarta (18), às 19h, haverá exibição do filme no Cineateatro São Luiz (Rua Major Facundo, 500, Centro). Antes, às 17h, uma roda de coco de Caetanos de Cima e os índios Tremembés se apresentam. Acesso gratuito.