Documentário do Projeto MAPADOC / Cartografias de Culturas. Realização Trama de Olhares / Prod. Executiva Liga / Apoio Cultural Secult/Ce. O projeto sentou breves residências em 06 comunidades de pesca artesanal e agricultura tradicional: Tatajuba, Caetanos de Cima, Assentamento Maceió, Flecheiras, Povo Tremembé de Almofala e da Barra do Mundaú. Contra o vento oeste, tradições d’água salgada, lutas pela terra cultivada! Povos do mar contra a expropriação, contra o turismo de massa, contra a especulação imobiliária, contra megaresorts, contra a inconsequente implantação de parques eólicos.
 

/FICHA TÉCNICA

Realização: Trama De Olhares Direção: Felipe Camilo Produção Executiva: Salomão Santana – Liga Produção, Assistência De Direção E De Pesquisa: Fernanda Brasileiro E Luciana Rodrigues Direção De Fotografia: Guilherme Silva E Henrique Kardozo Montagem: Felipe Camilo, Fernanda Brasileiro E Guilherme Silva Fotografia Still E Pesquisa Fotográfica: Henrique Kardozo Trilha Sonora: Ednar Pessoa Músicas Eugênio Leandro – Catavento Marta Aurélia – Estudo I Entre Ô Jandê, Dos Índios Tremembé De Almofala, E O Rap De Erivan Produtos Do Morro Projeto Editorial: Joice Nunes; Projeto Gráfico: Juliana Siebra; Produção Cultural: Mikaelly Alves

/VIDAS AO VENTO

Contra vento oeste, tradições d’água salgada, lutas pela terra cultivada. Povos do mar contra a expropriação, contra o turismo de massa, contra a especulação imobiliária, contra mega-resorts, contra a inconsequente implantação de parques eólicos.
 Tempo praiano, pesca artesanal, vida comunitária, agricultura tradicional, sangue derramado por moradia, os ritos alegres e resistentes do Coco ao Torém, tudo isso atravessa as histórias das comunidades tradicionais e dos Índios Tremembé nas centenas de quilômetros da costa oeste do Ceará. Adentro, os territórios se dividem entre dunas, corais, pequenas roças, grandes coqueirais e cataventos eólicos. Partindo o chão, predomina o vemelho-barro das estradas carroçais. Marisqueiras, Pescadores artesanais e agricultores se destacam nos cotidianos da costa. Indiferente ao autorreconhecimento étnico, o “fenótipo” indígena se espraia por todo esse litoral. Lhes é comum também o conflito pela terra contra grandes projetos turísticos, eólicos, e de monocultura de coco . A estratégica incitação a intrigas duradouras entre conterrâneos e parentes durante a defesa de seus territórios é prática comum por parte de representantes desses empreendimentos.
Nosso bando documentarista-pesquisador vivenciou, com a brevidade de pouco mais de dois meses, 06 territórios marcados em maior ou menor grau por tais semelhanças. Assim, nossa Trama de Olharespartiu de Fortaleza, seguindo pelas cercanias de Flexeiras, Assentamento Maceió, Povo Tremembé da Barra do Mundaú, Caetanos de Cima, Povo Tremembé de Almofala e Tatajuba. Da Capital a Camocim, tínhamos nossa residência-oficina como dispositivo que mobilizou nosso encontro com pessoas, memórias, suas práticas tradicionais sobre o sensível, sobre o político e sobre suas paisagens. Pensávamos fazer nossa cartografia entre suas culturas, artes e tradições, mas seus mestres, suas lutas e suas formas de fazer e partilhar o comum implodiram nossas concepções de cultura, comunidade, política, arte, natureza e tradição.
***
Se antes a figura do artista à periferia de uma grande capital nos tomava a atenção, nas comunidades litorâneas às quais desejávamos imergir agora seria improfícuo buscar sujeitos ou grupos que tenham como profissão, atividade econômica principal, carreira, aquilo que corriqueiramente nas metrópoles classificamos como arte. Não que não hajam cantores e pintores ali, mas seus modos de fazer são tão mais organicamente atrelados às histórias, políticas, cosmovisões e cotidianos de suas comunidades, que muitas vezes os termos “arte”, “artista”, “autoria”, “obra” não lhes dizem respeito, não estão no vocabulário que envolvem seus ofícios e fazeres. Em Caetanos de Cima contamos com a colaboração de jovens atuantes em um movimento organizado mulheres que nos mostraram como as práticas de fiar e fazer renda estavam atrelada à defesa de seus territórios contra posseiros e empresários. ‘Mestres da Cultura’ narraram nos arredores de Caetanos e Flexeiras suas trajetórias que partem da pesca para a dança do Coco. Na Barra do Mundaú e no Assentamento Maceió, o cordel e as canções remontam às lutas pela formalização do território indígena de um lado e dos assentados do outro. Os Tremembé da Barra do Mundaú aludem em suas canções durante a dança do Torém desde seus frutos sagrados, Murici Batiputá, à luta contra o Projeto do Resort Nova Atlântida. A pintura corporal em ambas as comunidades Tremembés. As rezadeiras que curam doenças e ‘quebrantes’, as práticas da garrafada e do lambedor, o reisado e o coco, a pesca com paquete e canoa, a mariscada e coleta de algas nos corais, os artesão de escamas de camurupim…entre as seis coletividades, não há como dissociar nem tradições, nem seus praticantes, das lutas e resistências territoriais e culturais.
Ao longo da dupla jornada de maturação de um projeto, na qual se peleja por financiado e por refinamento de nossas práticas, apostamos para esta aventura no litoral oeste intensificar nossa relação com as comunidades ao invés do até então almejado mapeamento exaustivo. Assim, não mais documentaristas e pesquisadores visando a confecção de mapas, mas a cartografia servindo de guia para a câmera e para caneta.
O que encontramos aqui nesse inventário de culturas cearenses, trata de estar entre mulheres e homens cujas artes mobilizam cotidiano, política e tradição; trata  de dispor os documentaristas, os pesquisadores de modo engajado às redes comunitárias daqueles que conservam e atualizam a memória de seus lugares. Na pista de César Guimarães, nos concentramos na cena sensível da política, acreditando na potência do audiovisual, da fotografia e da escrita enquanto poética que opere na “redistribuição das maneiras de fazer e de ser, e das formas de visibilidade”. Inventário e documentários à serviço de outras formas de repartir o comum, à serviço das lutas e tradições dos povos do mar.